Newsletter BVB #24 | O crédito ficou mais difícil. Sua empresa está preparada?

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Durante muito tempo, muitas empresas cresceram contando com uma coisa: crédito disponível. Quando faltava caixa, existia uma linha de crédito. Quando surgia uma oportunidade, existia financiamento. Quando a operação apertava, era possível renegociar.

Mas o cenário mudou. E mudou de forma estrutural, não passageira.


💡 Para entender o cenário

A Selic está em 15% ao ano desde junho de 2025, o maior patamar desde 2006. Com o capital bancário mais caro, os bancos passaram a adotar critérios mais rigorosos de concessão, e o acesso ao crédito ficou mais seletivo.

Os números confirmam o aperto. Segundo a Sondagem Especial da CNI sobre condições de acesso ao crédito, entre as empresas industriais que enfrentaram dificuldade para obter crédito de curto ou médio prazo, 80% apontam os juros altos como o principal entrave. No crédito de longo prazo, 71% dizem o mesmo. E mais de 60% das indústrias relatam maior dificuldade de acesso ao financiamento bancário do que antes do ciclo de alta dos juros.

A conta já aparece no caixa. A Serasa Experian registrou o fechamento de 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, recorde histórico, somando 213 bilhões de reais em dívidas. Dessas, 8,5 milhões eram micro e pequenas empresas. Em um ano, foram cerca de 2 milhões de CNPJs a mais no vermelho.

É justamente nesses momentos que aparece a diferença entre empresas estruturadas e empresas que vivem no limite.


⚙️ Quando o crédito aperta, o que estava escondido aparece

Crédito caro funciona como um teste de estresse involuntário. Problemas que ficavam disfarçados enquanto o dinheiro era abundante começam a aparecer com clareza.

Falta de controle financeiro. Dependência excessiva de empréstimos para fechar o mês. Margens apertadas demais para absorver juros maiores. Ausência de planejamento que permita antecipar apertos de caixa.

Enquanto o crédito era fácil e barato, esses pontos podiam ser empurrados para frente. Cada aperto se resolvia com uma nova linha, cada buraco se tapava com mais um empréstimo. Agora, com o dinheiro caro e o acesso restrito, a conta chega de uma vez. Não por acaso, a economista-chefe da Serasa aponta que a maior pressão recai sobre os negócios com menor acesso a crédito estruturado, justamente os que dependem de recursos de curto prazo para sobreviver.


⚖️ A diferença que define quem cresce e quem apenas sobrevive

Existe uma distinção simples, mas decisiva, no uso do crédito.

Empresas saudáveis usam crédito para acelerar crescimento. Tomam recursos para aproveitar uma oportunidade clara, financiar uma expansão planejada ou antecipar um investimento que já tem retorno mapeado. O crédito entra como alavanca de uma operação que já funciona.

Empresas desorganizadas usam crédito para sobreviver. Tomam recursos para pagar folha, cobrir caixa furado ou quitar dívidas antigas com dívidas novas. O crédito entra como respirador de uma operação que não se sustenta sozinha.

E existe uma diferença enorme entre essas duas situações. A primeira constrói. A segunda apenas adia.

O crédito pode ser uma ferramenta poderosa. Mas ele não substitui gestão. Não substitui caixa. E não substitui previsibilidade.


🏗️ Para finalizar

No fim, a pergunta não é se sua empresa consegue crédito hoje. A pergunta é mais incômoda e mais reveladora: se o crédito ficasse mais caro ou mais difícil amanhã, sua empresa continuaria operando da mesma forma?

Três perguntas ajudam a responder isso com honestidade. Sua empresa consegue operar pelos próximos meses sem depender de uma nova linha de crédito? Suas margens absorvem um aumento no custo financeiro sem comprometer a operação? Você usa crédito por estratégia ou por necessidade de sobrevivência?

Quem responde com segurança está usando o crédito como alavanca. Quem hesita, descobre que estava usando o crédito como muleta, e muleta some justamente quando a economia aperta.

O melhor momento para organizar a estrutura financeira não é quando o crédito some. É agora, enquanto ainda existe margem para decidir com calma em vez de reagir no desespero.

Até a próxima,
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